Documentos obtidos pela Euronews indicam que a Comissão Europeia acompanha, pelo menos desde 2023, a questão dos Fenómenos Anómalos Não Identificados (UAP) e admite a necessidade de reforçar as capacidades europeias de detecção e identificação.

Uma investigação publicada esta segunda-feira, 17 de Agosto, pela Euronews revela que a Comissão Europeia tem vindo a acompanhar o fenómeno dos UAP de forma mais activa do que até agora era publicamente conhecido.

Segundo a documentação consultada pela Euronews, a Direcção-Geral responsável pelas questões de defesa da Comissão reconheceu a necessidade de melhorar as capacidades europeias de observação do espaço e da identificação de objectos não identificados. Num documento citado pela publicação, a Comissão afirma que a Europa está a tornar-se “melhor a vê-los e melhor a identificá-los” à medida que as capacidades tecnológicas evoluem, acrescentando, contudo, que é necessário continuar a melhorar.

A questão chegou à Comissão na sequência de contactos realizados em 2022 por dois astrónomos amadores malaios, que enviaram dezenas de imagens e registos de alegados UAP e questionaram as instituições europeias sobre a sua origem. Embora a Comissão tenha esclarecido que não possuía competência para investigar fenómenos ocorridos no espaço aéreo da Malásia, indicou que poderia propor aos Estados-membros um reforço da capacidade europeia para detectar objectos no ambiente espacial próximo da Terra.

A resposta da Comissão é particularmente significativa pela forma como enquadra a questão: não como uma confirmação de qualquer origem extraordinária dos fenómenos, mas como um problema de detecção, identificação, segurança aérea e conhecimento do ambiente espacial. A própria Comissão reconheceu que uma melhoria das capacidades poderá permitir esclarecer alguns dos casos reportados, embora não necessariamente todos.

A investigação da Euronews surge num momento em que o tema dos UAP começa a adquirir maior visibilidade institucional em diferentes países europeus.

A França continua a ser o caso mais estruturado, através do GEIPAN, organismo do CNES dedicado ao estudo dos fenómenos aeroespaciais não identificados. Desde a sua criação, em 1977, o GEIPAN analisou mais de 3.300 casos, dos quais 106 permanecem classificados como inexplicados após investigação, enquanto outros 1.014 não puderam ser resolvidos devido à insuficiência dos dados disponíveis.

A actual evolução do debate europeu tem também um antecedente português particularmente relevante.

Em 2024, o então eurodeputado Francisco Guerreiro tomou uma iniciativa pioneira ao levar formalmente a questão dos UAP ao Parlamento Europeu. Em Janeiro desse ano, dirigiu à Comissão Europeia perguntas sobre a criação de mecanismos europeus de monitorização e reporte de UAP no âmbito da futura legislação espacial da União Europeia, bem como sobre a possibilidade de integrar o fenómeno nos sistemas europeus de Space Surveillance and Tracking.

Pouco depois, Guerreiro promoveu, em 20 de Março de 2024, no Parlamento Europeu, a sessão “UAP: Reporting and Scientific Assessment in the EU”. O encontro reuniu investigadores, cientistas, pilotos e especialistas internacionais, com o objectivo de abrir um debate institucional sobre a necessidade de melhorar a recolha de dados, a avaliação científica e os mecanismos de reporte de fenómenos não identificados na Europa.

A iniciativa foi particularmente significativa porque ocorreu num momento em que, segundo uma resposta da própria Comissão Europeia, não existia ainda nenhuma autoridade da União Europeia especificamente responsável pela questão dos UAP. A sessão procurou precisamente contribuir para retirar o tema da esfera do estigma e colocá-lo no contexto da segurança aérea, da investigação científica e da política espacial europeia.

É importante recordar este episódio no contexto actual. A discussão que hoje começa a aparecer no radar das instituições europeias não surgiu subitamente: tem vindo a ser construída ao longo dos últimos anos através da iniciativa de eurodeputados, investigadores e organizações de vários países europeus que, frequentemente de forma discreta, têm procurado sensibilizar as instituições da União para a necessidade de uma abordagem europeia aos UAP.

O artigo da Euronews menciona igualmente o papel do eurodeputado Fabio De Masi, que durante 2025 e 2026, questionou repetidamente a Comissão sobre a possibilidade de introduzir uma categoria específica e normalizada para o reporte de incidentes UAP na aviação europeia.

A Euronews destaca ainda a posição de vários pilotos europeus, que consideram que a ausência de procedimentos específicos contribui para a sub-notificação de avistamentos e dificulta a construção de uma imagem coerente do fenómeno à escala continental.

A Agência Europeia para a Segurança da Aviação (EASA), por seu lado, considera que o actual sistema já permite reportar qualquer ocorrência susceptível de afectar a segurança aérea, não tendo identificado até ao momento evidências de que os UAP constituam um problema sistémico para a aviação.

A mudança de linguagem também é significativa.

O termo UAP — Unidentified Anomalous Phenomena, ou Fenómenos Anómalos Não Identificados — procura afastar o debate das conotações culturais associadas à palavra “OVNI” e concentrar a atenção naquilo que pode efectivamente ser observado, registado, analisado e, eventualmente, explicado.

Isso não implica assumir previamente qualquer hipótese sobre a natureza dos fenómenos.

Pelo contrário, significa reconhecer que um fenómeno não identificado é, antes de mais, um problema de informação insuficiente ou de explicação incompleta — e que a resposta adequada é melhorar a qualidade dos dados, desenvolver metodologias de análise e permitir que diferentes hipóteses possam ser testadas.

É precisamente neste ponto que a questão dos UAP pode adquirir relevância para a investigação científica europeia.

A notícia da Euronews não demonstra que a União Europeia tenha criado um programa oficial de investigação de UAP, nem que Bruxelas disponha de evidências de origem extraterrestre ou de outra natureza extraordinária. O que demonstra é algo mais modesto, mas potencialmente importante: as instituições europeias já reconheceram que é necessário melhorar a capacidade de observar, detectar e identificar aquilo que permanece não identificado no espaço aéreo e espacial europeu.

Para uma área historicamente marcada pelo estigma e pela fragmentação, essa mudança de enquadramento pode constituir um passo significativo.

E, nesse sentido, o crescente trabalho de cooperação entre grupos e investigadores europeus poderá revelar-se tão importante quanto as próprias iniciativas institucionais que começam agora a surgir.

Fonte – Euronews

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